Melatonina faz mal? Uso contínuo pode trazer riscos à saúde a longo prazo

Popular como “remédio natural” para dormir, a melatonina pode causar efeitos indesejados quando usada sem orientação médica por longos períodos.

1/28/20263 min read

A melatonina, hormônio ligado à regulação do ciclo de sono, tem sido amplamente consumida como suplemento para “dormir melhor”. Por ser vendida como produto natural e disponível sem receita em vários países, muitos a consideram segura, mas novas pesquisas levantam alertas importantes sobre os potenciais riscos do uso frequente e prolongado dessa substância.

O que a ciência tem mostrado?

Uma pesquisa apresentada em 2025 na Associação Americana do Coração (AHA) acompanhou mais de 130 mil adultos com insônia por cinco anos e identificou que pessoas que usaram melatonina por um ano ou mais tiveram:

  • 90% mais probabilidade de desenvolver insuficiência cardíaca do que aquelas que não usaram o suplemento;

  • Risco mais elevado de hospitalização por problemas cardíacos;

  • Taxa de mortalidade geral maior ao longo do período observado.

Esses dados chamam atenção porque contradizem a ideia de que a melatonina é “inofensiva”, mesmo quando usada por longos períodos. Contudo, especialistas lembram que a associação estatística não prova que a melatonina seja a causa direta desses efeitos, outros fatores, como insônia persistente ou condições de saúde subjacentes, podem influenciar o resultado.

Por que isso preocupa médicos e pesquisadores?

Apesar de distribuída como suplemento alimentar em muitos mercados, a melatonina é, na verdade, um hormônio produzido pela glândula pineal, responsável por sinalizar ao corpo que é hora de dormir. Essa função complexa afeta não apenas o sono, mas também regula processos como:

  • Temperatura corporal;

  • Pressão arterial;

  • Ritmos biológicos internos.

O endocrinologista José Cipolla-Neto, da USP, alerta que interferir em um hormônio não é o mesmo que repor uma vitamina comum, e que o uso indiscriminado pode impactar diversos sistemas do organismo.

Uso sem orientação médica: um padrão arriscado

No Brasil, a Anvisa autorizou a venda de melatonina como suplemento alimentar, o que facilita seu acesso sem prescrição médica.

Mas essa classificação não altera o fato de que:

  • É possível tomar doses maiores do que o corpo realmente precisa;

  • A substância pode permanecer ativa no organismo durante o dia;

  • Sintomas como sonolência excessiva, tontura e dor de cabeça podem surgir mesmo em curto prazo.

Além disso, muitos produtos vendidos comercialmente não têm um controle rigoroso de qualidade e dosagem, o que pode levar a ingestão de quantidades muito superiores às recomendadas em estudos clínicos e pelas agências reguladoras.

Ciência ainda precisa confirmar causalidade

Os especialistas reforçam que os dados atuais não são provenientes de um ensaio clínico randomizado, ou seja, ainda não podemos afirmar com certeza que a melatonina causa diretamente problemas cardíacos. A pesquisa apresentada no AHA ainda não foi publicada em revista revisada por pares, o que limita a força das conclusões.

Ainda assim, a evidência é considerada forte o suficiente para suscitar cautela, especialmente no caso de uso diário por longos meses ou anos.

Alternativas e recomendações médicas

Diante da incerteza sobre os riscos do uso prolongado, médicos e especialistas em sono sugerem:

  • Investir em higiene do sono, como horários regulares, ambiente escuro e sem telas antes de dormir;

  • Considerar terapia comportamental cognitiva para insônia, que atua nos hábitos e pensamentos que mantêm dificuldades para dormir;

  • Buscar avaliação profissional antes de iniciar ou manter o uso de melatonina por períodos prolongados.

Mudar estilos de vida, como atividade física regular, alimentação equilibrada e gerenciamento de estresse, pode, muitas vezes, resultar em melhora significativa do sono sem a necessidade de suplementos.

Embora a melatonina continue sendo uma ferramenta útil em situações específicas de alteração do ritmo circadiano, o uso contínuo sem supervisão médica não é automaticamente seguro. Pesquisas recentes sugerem associação com riscos cardiovasculares elevados a longo prazo, reforçando a importância de acompanhamento clínico antes de adotar esse suplemento como rotina.